O estudo japonês LORETTA (JCOG1505), apresentado no San Antonio Breast Cancer Symposium, trouxe para discussão um dos temas mais sensíveis da mastologia atual: seria seguro tratar o carcinoma ductal in situ (CDIS) de baixo risco apenas com hormonioterapia, sem cirurgia e sem radioterapia?
A questão surge a partir de um debate crescente sobre possível excesso de tratamento em parte dos casos de CDIS. Como nem todos evoluem para doença invasiva, pesquisadores vêm investigando se seria possível reduzir intervenções sem comprometer a segurança oncológica.
Como o estudo foi conduzido
O LORETTA foi um ensaio clínico de braço único que incluiu mulheres com diagnóstico de CDIS de baixo risco. As pacientes apresentavam características consideradas favoráveis, como:
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Receptores hormonais positivos
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Ausência de necrose comedo
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Lesão de tamanho limitado
Todas receberam tamoxifeno como tratamento inicial obrigatório e foram acompanhadas de forma rigorosa, com avaliação clínica e exames de imagem periódicos. Não foi realizada cirurgia nem radioterapia de rotina.
O principal objetivo do estudo foi avaliar a taxa de progressão para câncer invasivo e verificar se essa estratégia poderia manter níveis de segurança comparáveis aos resultados obtidos com o tratamento cirúrgico padrão.
Quais foram os resultados?
Durante o seguimento, a taxa de progressão para carcinoma invasivo foi superior ao limite considerado aceitável pelo protocolo do estudo.
Embora muitas pacientes não tenham evoluído para doença invasiva, o número de casos que progrediram foi suficiente para demonstrar que a hormonioterapia isolada, sem cirurgia nem radioterapia, não alcançou o nível de segurança previamente estabelecido.
Dessa forma, o estudo não sustentou a omissão da cirurgia associada apenas ao uso de tamoxifeno no manejo do CDIS de baixo risco.
O que o LORETTA muda na prática?
O estudo contribui de maneira importante para o debate sobre desescalonamento terapêutico no CDIS. Ao oferecer dados prospectivos e estruturados, ele reforça que a vigilância associada apenas à hormonioterapia não pode ser recomendada como prática de rotina neste momento.
A busca por tratamentos menos agressivos é legítima e necessária. No entanto, a redução do tratamento não pode ocorrer às custas da segurança oncológica.
Por enquanto, a cirurgia — eventualmente associada à radioterapia — continua sendo o padrão de cuidado no CDIS, especialmente quando o objetivo é prevenir a transformação para câncer invasivo.
A decisão terapêutica deve sempre ser individualizada, considerando as características do tumor, o perfil da paciente e a discussão detalhada com a equipe especializada.


