Por que os casos de câncer de mama estão aumentando?

Conheça os principais fatores de risco que influenciam o aumento do número de novos casos da doença

Dados do INCA (Instituto Nacional do Câncer) de 2018 mostram que 59.700 mulheres desenvolveram câncer de mama no Brasil. Como em quase todo o mundo, a incidência brasileira do câncer de mama vem aumentando ano a ano a uma taxa de cerca de 2% anuais. Essa tendência é percebida pelas mulheres que, perplexas, nos questionam no consultório sobre qual a explicação para esse fenômeno.

A resposta não é tão simples porque são causas multifatoriais. Cada fator influencia o risco parcialmente, o que contribui para um aumento agregado no número de novos casos. Inicialmente, o fato de hoje se falar mais abertamente sobre o diagnóstico de câncer já explica uma pequena parcela da percepção de aumento. Há algumas décadas, o diagnóstico de câncer era estigmatizado como hoje é o da AIDS. Ao perder-se o estigma não há mais constrangimento em revelá-lo. Logo, a notícia de um diagnóstico circula mais livremente ampliando a percepção do aumento. Além disso, a expectativa de vida vem aumentando. Quanto mais velhos ficamos, maior a chance de desenvolver um câncer. A utilização em larga escala da mamografia aumenta também o número de diagnósticos. Acredita-se que alguns pequenos tumores indolentes detectados pelo exame poderiam não se desenvolver e não serem diagnosticados.

Por fim, a principal razão para esse incremento se reflete na mudança de estilo de vida que vem ocorrendo com os tempos modernos. Em apenas uma geração, grandes mudanças aconteceram nas vidas das mulheres. O número de filhos reduziu drasticamente. A taxa de fecundidade (número médio de filhos por cada mulher) no Brasil na década de 60 era de 6 filhos. Em 2015 passou para 1,72. As mulheres também tinham o primeiro filho mais jovens do que atualmente.

Há uma geração, as mulheres se casavam por volta dos 20 anos, tinham de 6 a 8 filhos e às vezes até mais. Isso significa que entre 20 e 35 anos elas passaram a maior parte do tempo grávida ou amamentando. Em decorrência, essas mulheres menstruavam centenas de vezes menos do que uma mulher que se casa aos 30, tem o primeiro filho aos 36 e se limita a dois filhos, por exemplo. Cada ano que se retarda a primeira gravidez aumenta cerca de 3% no risco relativo e cada parto a mais que a mulher se submete reduz o risco relativo em 7%.

A mama é um órgão rico em receptores hormonais e responde à variação hormonal do ciclo menstrual. Esse estímulo hormonal periódico continuado parece estar relacionado ao aumento do risco. Além disso, a amamentação induz a modificações celulares nas mamas (diferenciação tecidual), que confere um fator de proteção. Estima-se que cada ano de amamentação reduz relativamente 4,3% no risco do câncer de mama.

O aumento na utilização da reposição hormonal combinada na pós-menopausa também está associado a esse incremento no número de casos. Porém, é importante ressaltar que esse aumento só ocorre nas mulheres que utilizam a reposição acima de 4 anos de uso e isso se restringe às formulações que combinam estrogênios e progesterona.

Outro fator importante que impacta a incidência de câncer de mama se relaciona à obesidade. O Índice de Massa Corporal (IMC) correlaciona proporcionalmente com o risco. Há cerca de 40 anos, tínhamos 40% menos calorias na dieta do brasileiro. Hoje vivemos uma epidemia de sobrepeso e obesidade. O tecido gorduroso é fonte de produção de hormônios que estão implicados na gênese do câncer e o aumento do peso eleva a concentração de substâncias no sangue relacionadas à inflamação que induzem mutações genéticas. Quando ingerimos um alimento calórico, modificamos o metabolismo da insulina e da glicose. A glicose elevada e outras proteínas desse metabolismo glicídico também conferem um incremento no risco. Estudos comprovaram uma relação direta entre o estado pré-diabético e o câncer.

Em relação direta com os fatores de risco mencionados está também o sedentarismo. A prática regular de atividade física associada ao controle de peso e alimentação saudável pode reduzir o risco do câncer de mama de 15% a 30%. É uma importante recomendação que fazemos a todas as pessoas.

O consumo de álcool tem aumentado significativamente nos últimos anos entre as mulheres. Esse consumo excessivo também colabora para o aumento do risco porque o álcool induz a uma elevação dos níveis do estrógeno no sangue.

É curioso observar que todos esses fatores ligados ao estilo de vida se relacionam com a modernidade e a evolução dos costumes nas sociedades mais desenvolvidas. Se observarmos um mapa mundi da incidência do câncer de mama como aquele publicado pelo IARC (Agência Internacional para Pesquisas com Câncer – https://gco.iarc.fr/today/data/factsheets/cancers/20-Breast-fact-sheet.pdf), veremos que as diferenças entres os países se sobrepõe com exatidão à distribuição econômica.

Quanto mais desenvolvido um país, mais casos de câncer de mama serão diagnosticados. Como o Brasil vêm lentamente melhorando o padrão de vida, a incidência do câncer de mama também se eleva. Por essa razão, as regiões mais desenvolvidas do país (Sudeste e Sul) são aquelas que concentram o maior número de casos.

A boa notícia é que, apesar do aumento no número de casos, as taxas de cura estão se elevando também. Felizmente, a grande maioria das mulheres que eventualmente tenham desenvolvido um câncer de mama hoje fica curada pelo tratamento.

Portanto, para compreender esse fenômeno temos que contemplar essa “salada” de fatores e perceber que o aumento é resultado da combinação de todos esses efeitos. E é por isso que cultivar um estilo de vida saudável, através da prática de exercícios físicos regulares, alimentação saudável e controle do peso são essenciais para reduzir o risco de câncer de mama.

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