Alopecia induzida por quimioterapia

A queda do cabelo é um dos efeitos colaterais mais comuns e mais emocionalmente devastador do tratamento oncológico

Com o aumento da sobrevida nos tratamentos contra o câncer de mama, aumenta a preocupação com a qualidade de vida do paciente oncológico. A alopecia induzida por quimioterapia (a queda de cabelos oriunda a partir de um efeito colateral do tratamento contra o câncer) é um dos problemas mais comuns, acometendo até 65% dos pacientes. O caso é ainda mais agravante para as mulheres em geral, uma vez que os cabelos estão simbolicamente ligados a sua feminilidade.

A perda capilar é especialmente problemática no câncer de mama quando há ainda o impacto da cirurgia de mastectomia, sendo um dos efeitos mais devastadores emocionalmente durante o tratamento oncológico. Pode estar presente mesmo após seis meses do fim da quimioterapia.

O impacto da queda dos cabelos é tão grande que até 8% dos pacientes escolheriam tratamentos quimioterápicos com resultados menos favoráveis desde que não ocorresse a perda capilar. O efeito pode levar a uma imagem corporal negativa, a depressão e a ansiedade, fazendo com que o paciente relembre constantemente de sua doença, acarretando impacto improdutivo em várias atividades do cotidiano.

Metade dos pacientes a consideram estigmatizante por tornar o câncer visível, além de impactar ainda os familiares: metade dos filhos de mulheres com câncer acredita que o pior efeito do tratamento foi a alopecia.

Algumas mulheres com câncer de mama afirmaram que perder os cabelos foi pior do que a cirurgia da mama. Um estudo revelou que 13% das mulheres tinham medo de perder o parceiro caso tivesse alopecia induzida por quimioterapia.

O impacto da queda de cabelos também é mostrado pelo alto número de pacientes que querem camuflar sua perda capilar a partir do uso de perucas (próteses capilares) ou do uso de outras coberturas como lenço ou chapéu.

Como a quimioterapia causa a queda de cabelos?

O objetivo da quimioterapia é matar a célula cancerígena que está se multiplicando, mas, como efeito colateral, ela pode também matar outras células que estão se dividindo em outras partes do corpo. As células que mais se dividem no corpo são as células de medula óssea do sangue, somente perdendo para os folículos pilosos (estrutura complexa responsável pela geração de fibra  do cabelo e do crescimento do cabelo), é por isso que os cabelos costumam cair em quem faz quimioterapia.

Nas pessoas que já tem predisposição ao desenvolvimento de alopecia androgenética (calvície), a quimioterapia pode acelerar o processo.

Embora na grande maioria das vezes seja transitória, a perda capilar acarretada pela quimioterapia pode ser permanente. Já foram relatados casos de alopecia permanente induzida por agentes quimioterápicos como bussulfan, taxanos e mesmo o tamoxifeno. Tal fato se deu provavelmente pelo efeito tóxico direto nas células-tronco no bulge do queratinocito (região que possui células-tronco que poderão recuperar os cabelos em caso de calvície), com perda de contato na papila dérmica.

Falando especificamente sobre o câncer de mama, após a cirurgia, é realizada uma quimioprofilaxia, ou seja, um tratamento quimioterápico leve e com comprimidos para uso oral, para diminuir as chances de recorrência do tumor. Podem ser utilizados inibidores da enzima aromatase (grupo molecular das enzimas que age como mediador da aromatização de andrógeno em estrógeno) ou moduladores seletivos de receptores de estrógeno, com esse intuito, e devem ser ingeridos de 5 a 10 anos após a remoção do tumor, claro, dependendo de cada caso.

Eles podem aumentar as taxas de queda de cabelos e mesmo de afinamento dos fios. Hoje questiona-se se esses medicamentos possam acelerar a velocidade de progressão da alopecia androgenética, mas há a necessidade de maiores estudos para essa confirmação.

Resfriamento do couro cabeludo como método de prevenção da alopecia induzida por quimioterapia: o que é?

O resfriamento do couro cabeludo, ou Scalp Cooling, é um método de prevenção da alopecia induzida por quimioterapia. Pode ser realizado a partir das toucas de gelo ou, mais recentemente, a partir de um aparelho que promove o resfriamento controlado do couro cabeludo do paciente antes, durante e após a administração dos medicamentos quimioterápicos, mantendo a temperatura negativa no couro cabeludo.

O processo reduz o fluxo de sangue para os folículos capilares, minimizando a perda capilar. Ele funciona como um mini refrigerador acoplado a uma touca térmica por onde se passa um gel resfriado por meio de uma serpentina e que mantém a temperatura estável durante todo o processo.

O fundamento do resfriamento é o seguinte:

  1. Vasoconstricção– redução do fluxo sanguíneo para os folículos pilosos durante o pico de concentração plasmática dos agentes quimioterápicos, com redução de sua captação celular.
  2. Redução de atividade bioquímica – os folículos pilosos ficam menos susceptíveis ao dano dos agentes quimioterápicos.

O uso do aparelho deve ser feito em conjunto com as sessões de quimioterapia: meia hora antes do paciente receber o medicamento e até uma hora após o término da quimioterapia, a depender da meia-vida do agente quimioterápico.

Pode ser utilizado a partir dos 18 anos, sendo que não há limite superior de idade.

O fato decisivo para a indicação é o esquema quimioterápico, não o tipo de câncer. Além do câncer de mama, o equipamento já foi utilizado em câncer de pulmão e de próstata, dentre outros.

Alguns pacientes podem se queixar de frio e de cefaleia durante o procedimento, mas são efeitos colaterais suportáveis.

O principal questionamento a ser feito é com relação ao risco de metástases (formação de uma nova lesão tumoral a partir de outra, mas sem comunicação entre as duas) cutâneas no couro cabeludo, como resultado da menor exposição a droga pela diminuição da perfusão sanguínea na região, apesar de até hoje não haver nenhum relato de metástase em pacientes que realizaram o resfriamento e que tinham tumores sólidos.

Para câncer de mama, o risco teórico de metástase no couro cabeludo é mínimo. Sabe-se que, em geral, a incidência de metástases cutâneas é baixa. Para avaliar esse possível efeito colateral, há a necessidade de um grande número de pacientes e extenso follow-up (acompanhamento de um processo após a execução da etapa inicial) .

É necessário ressaltar que os cabelos voltam a crescer com um atraso de até seis meses, e podem crescer mais encaracolados, por conta de um processo de queratinização mais irregular.

Autores:

Dra. Leila David Bloch
Dermatologista – Especializada em Terapias Capilares
CRM 108.287 | RQE 27.362
www.clinicabloch.com.br