As mudanças de protocolos no tratamento do câncer durante a Pandemia de COVID-19

O surgimento do novo coronavírus, no início do ano, forçou inúmeras instituições ao redor do mundo rever suas estratégias de tratamento oncológico, com o intuito de manter insumos e leitos, mas também pelo possível risco de contágio e maior suscetibilidade a formas agressivas de COVID-19 durante o tratamento do câncer.

As mudanças de protocolos no tratamento do câncer durante a Pandemia de COVID-19

Desde o último mês de março, estamos oficialmente em uma pandemia de um novo coronavírus, segundo a organização mundial de saúde. Diversos centros oncológicos mudaram seus protocolos de tratamento para otimizar  recursos e minimizar o risco das pacientes durante tratamento. Isto é particularmente importante nas cidades com casos confirmados da doença. Ao mesmo tempo, isso tem sido motivo de discussão pois o câncer também é uma urgência.

Do ponto de vista prático, podemos, didaticamente, dividir os tipos de pacientes em tratamento oncológico em três categorias:

  1. Aqueles que finalizaram o tratamento e estão em acompanhamento. Obviamente estes podem ter suas consulta remarcadas ou mesmo realizar uma “teleconsulta”ou “telemedicina” para verificar possíveis sinais de alerta.
  2. Os casos em que o benefício de certas terapias são “marginais”, portanto questionáveis. Exemplo disso são os carcinomas intraductais ou tumores invasivos iniciais de mama que expressam receptores hormonais. Estes casos podem ter eventualmente sua cirurgia postergada e iniciar hormonioterapia durante a pandemia.
  3. Situações em que há benefício moderado ou elevado da terapia. Portanto, atraso no início do tratamento pode significar um risco mais elevado de insucesso e maior mortalidade por câncer. Obviamente, neste cenário, o tratamento deve ser o mais próximo possível do padrão (antes da pandemia). Estes casos são os de maior risco, pois a maioria usará terapias imunossupressoras. Se encaixam neste perfil o câncer de pulmão de pequenas células ou o câncer de mama triplo negativo.

Qual o real impacto de uma infecção pelo novo coronavírus em uma paciente em tratamento por câncer?

A magnitude deste risco ainda não está bem estabelecido. Pode-se aferir que a alteração da imunidade ocasionada pelo tratamento oncológico tenha impacto negativo nessas pacientes. Algumas avaliações com número pequeno de pacientes estão disponíveis. Uma delas é um estudo recente chinês que avaliou o impacto do COVID-19 em pacientes oncológicos.

Trata-se de um estudo retrospectivo, que avaliou pacientes em três hospitais em Wuhan, na China: em 1276 pacientes avaliadas, 28 apresentaram câncer e COVID-19 simultaneamente entre janeiro e fevereiro de 2020 (prevalência de 2.2%). A maioria dessas pacientes (71.4%) adquiriu a doença fora do ambiente hospitalar. Em termos de desfecho, 78% dos casos necessitaram de terapia suplementar com oxigênio e 35% de ventilação mecânica. Foi observado que qualquer tipo de tratamento oncológico dentro de 14 dias da constatação da infecção foi associado a maior número de eventos adversos severos. No total, 28% dos pacientes morreram. Os autores concluíram que pacientes em tratamento oncológico recebam rigoroso “”screening” para COVID-19 e em caso positivo deveriam evitar tratamentos que causem imunossupressão.

Obviamente, se trata de um estudo retrospectivo, passível de críticas, devido ao número reduzido de pacientes, com boa parte deles (28%) contraindo a doença em  regime hospitalar, o que pode representar algum viés de seleção, especialmente por possivelmente se tratar de casos mais graves. Por outro lado, não há pacientes hematológicos no estudo e a história natural da pandemia demonstrou, ao menos na Europa, que a letalidade do COVID-19 foi maior no ocidente que na China nos pacientes em geral, o que seria um motivo a mais de preocupação. Mas há aprendizado nessas análises. Este estudo, assim como outros, demonstram que, no mínimo, devemos máxima cautela e particularizar os casos que podem iniciar um tratamento oncológico com impacto na imunidade. Mesmo em instituições  “COVID free”, este risco permanece pois a maioria das pacientes que estão com a doença pode ainda não ter sintomas ou mesmo contrair a doença em seus domicílios. Neste momento, uma discussão multidisciplinar antes de iniciar o tratamento se faz muito importante. Converse com seu médico e discuta todas as opções disponíveis para seu caso. O cenário atual pode mudar com o passar das semanas.

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