Isabela Ribeiro de Castro

Eu venci o Câncer de Mama!

Isabela Ribeiro de Castro

Acredito que todo diagnóstico de câncer é uma surpresa para quem o recebe. Afinal, temos uma tola mania de pensar que nossa vida vai seguir exatamente os rumos que planejamos para ela. Que quaisquer mudanças no caminho planejado serão sempre melhores do que os nossos desejos. Bem, apesar de acreditar nisso, garanto que diagnóstico de câncer é uma surpresa com S maiúsculo para mulheres muito jovens. Eu tinha 28 anos de idade quando recebi o meu.

O toque que precedeu o meu diagnóstico não foi meu. Foi o meu noivo que percebe a existência do nódulo. Eu tinha 28 anos de idade, iria me casar em 03 meses, tinha acabado de concluir o meu mestrado na minha área de maior interesse profissional, estava super bem no meu trabalho, tinha acabado de sair da casa dos meus pais, estava muito sintonizada com o esporte que pratico… E ganhei um diagnóstico de câncer.

Foram 06 dias desde o toque até o diagnóstico. 06 dias que começaram com um sentimento de muito desespero que, aos pouquinhos, foi se acalmando dentro de mim. Sou uma pessoa de muita fé, apesar de não ser tão religiosa. Mas procuro cultivar na minha relação com o divino a fé verdadeira. Procuro ser a melhor versão de mim para os que me rodeiam; procuro ser justa, dar valor à vida, ajudar pessoas através do meu trabalho. Foi com base em tudo isso que o desespero inicial foi dando lugar a uma serenidade. A uma leveza, a uma aceitação. Me convenci de que a vida, parafraseando Guimarães Rosa, “é assim: esquenta e esfria; aperta e daí afrouxa; sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”.

Pensei que se esse triplo negativo havia aparecido no meu caminho, algum propósito isso tinha que ter. Pensei que os desafios não surgem em nossas vidas sem motivo, sem razão de ser. Que as dificuldades nos ensinam lições que jamais seriam aprendidas se a vida seguisse simplesmente um curso natural de bonanças sequenciais. Pensei que atravessaria o câncer com muita dignidade. Que não me vestiria de guerreira, nem de vítima; eu seria humana. E passaria por isso da melhor forma que me fosse possível.

Como realmente a vida tem mania de atrapalhar mesmo os nossos planos, minha quimioterapia se deu junto com o período mais difícil da COVID-19 no nosso país. Das minhas dezesseis sessões de quimioterapia – 12 brancas e 04 vermelhas –, com imunoterapia a cada início de ciclo, só tive duas “quimiofolias” (sessões em que pude receber minhas amigas no apartamento e que viravam uma verdadeira ‘festa’, dentro do possível). Todas as outras se deram seguindo os protocolos de isolamento social.

Durante o tratamento, fiquei com meu noivo na casa dos meus pais. Eu, que havia acabado de consolidar a minha independência, me vi novamente precisando de ajuda. A imensa maioria dos meus dias foi vivida dentro da normalidade. Praticava crossfit e continue praticando, em casa. Trabalhei em home-office durante quatro dos meus cinco meses de quimioterapia. Me lembro perfeitamente que meus melhores dias eram aqueles em que eu nem me lembrava que estava com câncer, de tão normal que era a rotina. Existiram sim dias difíceis. Dias de fraqueza, dor na coluna, náuseas, muita fadiga. Dias em que parecia que o corpo estava sendo penetrado simultaneamente por centenas de microagulhas, e em que ficar na cama era a única atividade possível. Mas esses dias foram minoria. Vivi o período do meu tratamento sendo cercada de MUITO amor. Amor do meu noivo, dos meus pais e da minha irmã, que conviveram diariamente comigo e me ajudaram a segurar absolutamente todas as barras que surgiram, das maiores às menores. Amor das minhas amigas e amigos, que se fizeram presentes de diversas maneiras; vídeos, flores, muuuuitos bolos e doces, favores, inúmeros favores… Foi um período de muito amor, de muita esperança e de um olhar muito atento para o que realmente importa na vida.

Após os cinco meses de quimioterapia, fiquei 1 mês descansando e fiz minha cirurgia. Positivei para a mutação no BRCA1, então a recomendação era de mastectomia bilateral. Passei pela cirurgia, e fiz reconstrução imediata, com expansor. Nem nos meus melhores desejos eu poderia imaginar um resultado estético tão bom, tão bonito. Até hoje, quando olho, me sinto maravilhada com o resultado. Após a cirurgia, seis meses e dez dias depois do meu diagnóstico, vivenciei o momento mais emocionante da minha existência: tive a notícia da minha Resposta Patológica Completa. As peças retiradas da cirurgia foram “escacaviadas” de todas as formas possíveis e não tinha mais nadica de nada de célula cancerígena por ali. Celebrei muito e senti uma extrema gratidão. A todos os brilhantes profissionais de saúde que cruzaram o meu caminho; a toda a rede de apoio que me amparou com o amor mais genuíno durante os meses do meu tratamento.

21 dias depois da notícia da Resposta Patológica Completa, retomei a minha vida. Voltei para o trabalho presencial – seguindo os protocolos, obviamente. Retornei para o crossfit. Fui convidada para virar sócia da empresa em que trabalho. Remarquei meu casamento, que vai acontecer daqui a alguns meses. Me mudei com o meu noivo para um apartamento nosso (o que vivíamos antes era alugado), todo reformado do nosso jeitinho, com a nossa cara. Voltei a escrever artigos científicos, a colocar meus projetos pessoais e profissionais para frente. E se alguém me perguntasse hoje se eu preferiria viver sem ter passado pelo processo do câncer, eu responderia ‘não’ sem nem pensar duas vezes.

O câncer me ajudou a tornar a minha própria vida mais leve. Me faz pensar na minha própria felicidade em absolutamente todas as decisões que tomo. Me faz ter um desejo imenso de agradar a mim mesma, e não apenas às outras pessoas, como eu costumava viver. Me faz sentir muita gratidão por tudo. Pelo ar que respiro, pelas pessoas que me rodeiam, pela minha saúde, pelas programações mais singelas que faço diariamente. Me fez perceber que nada por ser tão valioso na vida quanto o amor. O trabalho, os estudos, os títulos, as pesquisas, as premiações, tudo isso permanece tendo muito valor aqui dentro. Mas apenas na medida em que me permite priorizar as pessoas e os afetos. Tudo é amor. O amor é absolutamente tudo.

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