Quimioterapia e terapias alvo são destaques no San Antonio Breast Cancer Symposium

Cobertura San Antonio 2018 – Parte 1

Dezembro é um mês muito importante para a Mastologia. Anualmente acontece o maior evento científico mundial na cidade de San Antonio, no Texas (EUA): o San Antonio Breast Cancer Symposium. Médicos do portal cancerdemamabrasil.com.br estiveram lá e apresentarão aqui, em quatro partes, os estudos mais relevantes sobre câncer de mama. O primeiro aborda a quimioterapia e as terapias alvo.

Estudo KATHERINE

O trastuzumab emtansine (T-DM1) é utilizado atualmente na doença metastática após quimioterapia e terapia anti-HER2. Este é um estudo fase III comparando o T-DM1 versus trastuzumab na terapia adjuvante do câncer de mama HER2 inicial com doença residual após quimioterapia neoadjuvante e terapia anti-HER2 (trastuzumab ou trastuzumab/pertuzumab) associada. Portanto, os investigadores do KATHERINE avaliaram a troca do trastuzumab, na adjuvância, pelo T-DM1. Vale ressaltar que cerca de 18% das pacientes do estudo utilizaram duplo bloqueio na neoadjuvância (trastuzumab e pertuzumab). A sobrevida livre de doença (SLD) foi significativamente maior no grupo do T-DM1: HR=0.50 (IC 0.39-0.54) ou uma melhora absoluta de 11.3% (77% para 88.3%). A análise de subgrupo demonstrou benefício independente do status do receptor hormonal e/ou do status axilar. Em relação as mulheres que utilizaram duplo bloqueio, não houve diferença, mas o HR foi similar ao do estudo (HR=0.54; IC: 0.27-1.06), possivelmente pelo número reduzido de pacientes. Houve aumento dos efeitos adversos manejáveis com T-DM1, compatíveis com relatos prévios. Este estudo poderá mudar a prática clínica neste cenário, apesar da prática atual de duplo bloqueio na adjuvância em mulheres de alto risco. Não há dados comparando duplo bloqueio ao T-DM1 neste cenário. A discussão será: é provável benefício adicional de pertuzumab após doença residual ?

Impacto do atraso da terapia sistêmica em triplo negativo

Em pacientes com câncer de mama triplo negativo (TN) diagnosticadas entre 2000 e 2014, um estudo retrospectivo Peruano com 608 pacientes (90% estadiamento II e III) demonstrou que o atraso da quimioterapia em mais de 30 dias piorou o desfecho clínico: a diferença foi maior que 10% na sobrevida global (SG), com HR para recorrência a distância de 1.9. Esses resultados pioram quando o atraso foi acima de 60 (HR= 2.47) ou 90 dias (HR= 2.79). Este estudo demonstra que otimizar o fluxo de pacientes durante o tratamento, especialmente de tumores com biologia adversa, é vantajoso, consistente com metanálise prévia.

Estudo CIBOMA

Estudo prospectivo randomizado que avaliou o papel da capecitabina  adjuvante em pacientes com tumores TN após quimioterapia (neo)adjuvante. Estudo anterior (CREATE-X) era o único que havia demonstrado vantagem em sobrevida livre de doença e sobrevida global após tratamento padrão, mas em pacientes com doença residual. O CIBOMA, por outro lado,  incluiu pacientes que completaram adjuvância ou mesmo que tiveram resposta patológica completa após tratamento sistêmico. O resultado do estudo apresentado em San Antonio deste ano não atingiu seu endpoint, sem diferença significativa em sobrevida livre de doença: 79.6% versus 76.8% em 5 anos. Análise de subgrupo observou benefício em tumores TN “não basais” (HR=0.53; IC: 0.30-0.91).

Estudo sobre resposta patológica completa (PCR) e desfecho clínico

Estudos anteriores não observaram diferenças entre usar quimioterapia neoadjuvante ou adjuvante. Tradicionalmente, o tratamento sistêmico prévio foi utilizado no passado em tumores localmente avançados. Na atualidade, a vantagem do tratamento sistêmico upfront está na possibilidade de minimizar cirurgia (mamária e axilar), bem como avaliar resposta in vivo. Uma metanálise prévia observou relação entre PCR como marcador prognóstico (melhor sobrevida livre de doença e global). A metanálise atual, com mais de 27.000 pacientes, teve resultados semelhantes: PCR relacionado a melhor desfecho clínico: SLD e SG com HR de 0.31 (IC: 0.24-0.39) e 0.22 (IC: 0.15-0.30) respectivamente. A informação nova é que não foi observado benefício de quimioterapia adjuvante se PCR for alcançado com a terapia sistêmica prévia.

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