Quimioterapia Vermelha

“Você está fazendo a quimioterapia vermelha?” Esta é uma das perguntas mais freqüentes que as pessoas em tratamento quimioterápico escutam. Geralmente o fato de ser “vermelha”está relacionada ao tratamento mais forte e à doença mais grave. Mas porque será que as pessoas tem este conceito tão sedimentado na cultura popular sobre o tratamento oncológico?

Quimioterapia Vermelha

As conhecidas “quimioterapias vermelhas” são uma das classes de drogas mais antigas do arsenal do tratamento do câncer. O grupo, cujo nome farmacológico é chamado de ANTRACICLINAS, é utilizado desde os anos 60. As primeiras antraciclinas utilizadas são a doxorRUBIcina e a daunorRUBIcina. Veja que existe o sufixo “RUBI” (de vermelho) em seus respectivos nomes. Rubi, tem a ver com a cor característica destes compostos produzidos por espécies de bactérias streptomyces. Por esta razão, as antraciclinas também são conhecidas como antibióticos antitumorais. O que provoca esta cor vermelha é a presença de um componente chamado aglicona.

Como esta substância provoca a destruição do tumor?

Estas substâncias agem diretamente no DNA das células de 3 maneiras principais:

  1. Inibem a ação de uma enzima chamada Topoisomerase II.
  2. Inserem-se diretamente na cadeia do DNA, provocando a interrupção das fitas do DNA.
  3. Produzem radicais livres que provocam dano oxidativo nas proteínas das células.

A relação desta classe de drogas com a impressão de “quimioterapia vermelha = quimioterapia forte” também foi provocada pelos eventos adversos comumente vistos nas pessoas que fazem uso deste tratamento. Mesmo com as inúmeras melhorias no tratamento de suporte que existem hoje para reduzir estas toxicidades, a “quimioterapia vermelha” ainda é muito relacionada a sua toxicidade maior, que pode incluir:

  • náuseas e vômitos
  • diarréia
  • mucosite (feridas na boca)
  • redução da imunidade
  • cardiotoxicidade
  • perda de cabelo (alopecia)

As antraciclinas fazem parte do tratamento de muitos tipos de câncer, pois são uma das classes de drogas mais eficazes nesta doença. No câncer de mama não é diferente. Entretanto, nos últimos anos com o avanço de todas as técnicas de tratamento e diagnóstico, as mulheres tem apresentado taxas de cura maiores e a preocupação com complicações tardias deste tratamento, tem sido uma realidade na comunidade científica.

As complicações tardias relacionadas a antraciclinas incluem a insuficiência cardíaca e as doenças mieloproliferativas, como as leucemias.
O risco de insuficiência cardíaca está relacionado a quantidade de medicamento utilizado e os protocolos atuais limitam o número de ciclos e dose por ciclo para reduzir este risco ao máximo. Entretanto, se sabe que fatores individuais dos pacientes podem aumentar este risco mesmo nas doses adequadas. Estes fatores incluem: hipertensão arterial, história de irradiação do tórax na infância, diabetes, extremos de idade.

Atualmente, existem situações nas quais já se pode substituir o uso de antraciclinas no tratamento do câncer de mama por outras drogas mais seguras e sem impacto na chance de sucesso do tratamento. Da mesma forma, quando o uso das antraciclinas se faz necessário, existem formas adequadas e seguras de acompanhar as pacientes para evitar ao máximo estas toxicidades indesejáveis.

A discussão dos riscos e benefícios deve ser individualizada e compartilhada entre equipe medica e pacientes.

Concluindo, a “quimioterapia vermelha” compreende uma classe de medicações quimioterápicas , que são utilizadas no tratamento do câncer há mais de 50 anos. Ficaram muito conhecidas popularmente por sua cor característica e por sua toxicidade. Mesmo depois de tantos anos, ainda é considerada uma das drogas mais eficazes no tratamento oncológico. Atualmente já existem alternativas de medicamentos mais modernos e menos tóxicos que permitem a sua substituição, entretanto, esta discussão é muito individualizada e deve ser abordada com sua equipe médica.


Autor:

Dra. Alessandra Morelle, MD PhD – CRM RS 22564
Oncologista do Hospital Moinhos de Vento – POA/RS, Membro GBECAM e LACOG, Co-fundadora da Startup Tummi

Instagram: @alessandramorelle

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