Viviane Lopes da Fonseca

Pode parecer clichê, mas procure encontrar o lado bom de tudo isso. Tenho certeza que você achará.

Viviane Lopes da Fonseca

Sempre achei engraçadas as pessoas que, após terem sobrevivido à alguma doença grave, comemoram todos os anos a graça alcançada…minha mãe, por exemplo, sempre fala que tem dois aniversários: um real e o outro é a data da cirurgia cardíaca pós infarto. A melhor parte no caso dela é que as duas datas são seguidas e, no mesmo mês. Então ela sempre ganha parabéns dia 18 e dia 19. Nunca achei que também teria dois “aniversários” para comemorar todo ano. E que eu simplesmente adoraria isso.

30/09/2019 foi o dia do meu diagnóstico de câncer de mama: é inesquecível, por razões óbvias. Tenho memórias de cada segundo daquela semana. Como todos os anos fiz meus exames de checkup, e no USG de mamas a médica já soltou a bomba: “Tem um cisto novo aí, acho que será necessária biópsia”. Fui logo ao médico. Biópsia feita. E aí a gente ouve de todos os lados que “não será nada”. Lógico que não é nada, pensei eu… quais as chances de uma mulher que se cuida, não fuma, não tem histórico de CA de mama na família, faz atividade física, alimenta-se super bem e faz seus exames anualmente, ter câncer? Nenhuma, qualquer pessoa diria isso. Pois é, mas pode acontecer com qualquer uma de nós.

E chega a notícia do resultado da biópsia. Lembro claramente de cada coisa que fiz naquele dia, do telefonema do meu marido, da ida ao consultório do meu médico, de ouvir a palavra câncer, tumor, cirurgia, quimioterapia, radioterapia… na hora a gente quer resolver rapidamente: marca cirurgia, vamos tirar logo isso, faz exames, e vai tudo correndo no automático. Você até esquece de sentir alguma coisa, sabe? Demora para a ficha cair.

De fato, eu acho que minha ficha só “caiu” após a terceira sessão de quimioterapia, na véspera do réveillon. Já sem cabelos, sobrancelhas e cílios, aquela foi a única sessão das 16 que realmente não me senti bem. Hoje acho que não foram só os efeitos colaterais da quimio, mas uma carga emocional enorme envolvida naquela data, era 31/12, data mágica quando os sonhos se renovam e tudo de ruim fica para trás. Data que você deseja tanta coisa, e naquele dia pensei: meu desejo de ano novo é não deixar que o câncer me vença, na verdade, eu nunca tive dúvidas que seria curada.

Quando você recebe o diagnóstico, seu “time” de apoiadores fica gigante: vizinhos que nem conhecia direito, gente que te olha ao lado da sala de espera do médico e sorri, parentes com quem você não fala há anos te ligam, e os amigos tornam-se indispensáveis durante todo o processo. A família próxima, marido, filho, mãe, pai e irmãos, todos vivendo tudo aquilo com você. E por mais incrível que possa parecer, você vai notar que a preocupação de todas estas pessoas com a sua cura é muito maior que a sua: eu acho que é porque junto com o câncer a mulher descobre uma força muito maior daquela que tem. Você lá dentro sabe que não existe a mínima chance de ser vencida. E não é só uma questão de religião ou não, de cada uma se apegar a algo, mas é um sentimento inexplicável dentro da gente. Você simplesmente sabe.

Foram 10 meses de tratamento entre cirurgia, quimioterapia e radioterapia: e para rimar, tudo isso no meio de uma pandemia. Os abraços apertados que eu precisava tanto quando cada fase era finalizada, ficaram para depois. Mas ao mesmo tempo os fios de cabelo foram surgindo, o inchaço do corpo desaparecendo e a certeza de estar curada aumentando. Aliás, esta questão dos cabelos é surpreendente: nenhuma mulher se imagina careca. Eu, particularmente, adorei a liberdade de ficar livre de escovar e pintar os cabelos por um tempo, principalmente porque sempre busco ver o lado bom das coisas. E se eu não tivesse ficado careca, nunca teria descoberto o lindo cabelo grisalho que tenho hoje e pretendo manter com um corte bem moderno.

Em 20/07/2020, 10 dias antes do meu aniversário, fizemos o procedimento para retirada do meu cateter, que foi carinhosamente apelidado de Jedi (sim, eu amo Star Wars). O Jedi me traria a força da cura, através dos remédios que por ali entrariam no meu corpo. Me despedi dele e ali deixei a Vivi A/C (antes do Câncer) e saí Vivi D/C (depois do Câncer). A Vivi D/C que assumiu os cabelos grisalhos, voltou a tomar uma taça de vinho sempre brindando mentalmente consigo mesma e ganhou um outro presente do câncer: a menopausa antecipada. Os efeitos colaterais do uso do Tamoxifeno, que tomarei por 10 anos, calores e humor instável são bem controlados com o uso de antidepressivos. O meu querido “Tamo” trouxe a menopausa e a liberdade de não menstruar mais…Vivi D/C mais uma vez vendo o lado bom das coisas.

Finalmente, se alguém me perguntasse hoje o que eu diria para uma mulher que recém descobriu um câncer de mama, seria: Moça, se prepara porque não será fácil. Se você tem filhos, por favor não esconda seu diagnóstico deles, ou de ninguém. Não tenha vergonha da sua careca, por mais vaidosa que você seja: é por um bom motivo. Abrace, abrace muito as enfermeiras, amigos, família, os médicos (isso sem pandemia, certo?) e por último, pode parecer clichê, mas procure encontrar o lado bom de tudo isso. Tenho certeza que você achará.

Viviane Lopes da Fonseca- 44 anos.

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