Juliana Lucena Rizzieri

Eu venci o Câncer de Mama!

Juliana Lucena Rizzieri

Numa manhã de sexta feira fui fazer exames de rotina. Entrei na clínica como se fosse mesmo rotina e saí de lá completamente fora dela.

Entrei com horário marcado para sair, pois tinha compromissos depois e saí horas depois do combinado e com a agenda de compromissos cancelada. O câncer, inicialmente, faz isso com a gente – cancela. Cancela nossa agenda, cancela nossos planos, cancela quem a gente é. Minha agenda, antes voltada para a vida profissional, se viu repleta de outros compromissos. Exames, cirurgias, consultas. Muita coisa mudaria a partir disso, mas eu não tinha a noção exata do quanto tudo mudaria. Meu corpo se tornou outro e as mudanças físicas aconteceram tão rápido, que não tive tempo para adaptações. Um mês depois do diagnóstico eu não tinha cabelos, tinha mamas que não eram as minhas e começava oficialmente minha coleção de cicatrizes.

Passar por um tratamento de câncer de mama é um processo de recuperação ao contrário. Você começa a tratar uma doença que, muitas vezes, não te faz sentir doente. Você sabe que ele está lá porque alguém te contou. E, muitas vezes, o tratamento é que te faz sentir adoecido. As dores da cirurgia, os enjoos e mal estares da quimioterapia, a pele machucada pela radioterapia, os efeitos colaterais do bloqueio hormonal. É como uma montanha russa, que você entra com ansiedade para saber como será, passa um perrengue tremendo no trajeto e, quando termina, sai descabelada (ou sem cabelo) e com uma sensação estranha de que aquilo foi ruim mas foi bom. O que o corpo sofre, é absolutamente possível de controlar com medicamentos. Tem remédio para tudo – para dor do pós operatório, para o enjôo da quimioterapia, para a pele sensibilizada pela radioterapia. Mas o que acontece em níveis mais profundos que o corpo, precisa ser visto e cuidado com tanta atenção quanto os sintomas do lado de fora. Estabelecer um contato tão próximo com a finitude nos coloca numa posição de rever a própria vida. Todos somos finitos, porém nem todas as pessoas têm a chance de perceber isso de uma forma concreta e continuar vivo depois, e isso o câncer faz com maestria. Você tem a oportunidade de rever o que fez, relembrar o que gostaria de ter feito e perceber que não pode perder tempo de fazer o que deseja daqui para frente, pois o daqui para frente é urgente. Surge uma necessidade de alinhar as atitudes com as crenças e valores, e não mais com expectativas. Não existe mais espaço para meias vidas ou para pilotos automáticos.

Ao me questionar o que eu havia feito da vida até aquele momento e sentir no fundo da alma a tristeza de não encontrar um legado que pudesse ter valido a minha existência, passei a não abrir mão de um segundo de vida que seja. Cada dia é uma oportunidade de criar a minha herança para o meu mundo. E penso que isso foi o que eu venci COM o câncer. Ele me ajudou a colocar a vida no trilho que faz sentido e me ensinou a manter os olhos e o coração abertos para cultivar ações e relações que vão construir a minha história de uma maneira que me traga orgulho de ser quem eu sou. Não me tornei perfeita porque tive câncer, mas aprendi a me olhar com gentileza quando percebo os gatilhos que me colocam em desencontro. Me perdoar me dá a chance de sempre começar de novo, me traz a oportunidade de viver uma esperança por dia e, aquela agenda, que eu entendia como cancelada, hoje vejo como aberta. Aberta a experiencias, habilidades e curiosidades. Aberta para quem eu amo e o que me faz feliz. Entendi que meus únicos compromissos inadiáveis são comigo mesma.

Hoje eu não tenho mais câncer mas não considero que venci uma batalha, meu processo não foi uma luta ou uma guerra. Se tiver que usar um eufemismo para defini-lo, penso que foi um naufrágio. O barco da minha vida furou, tive alguns meses para escolher o que eu salvaria deste naufrágio e o que não era realmente importante, hoje mora no fundo do mar. O mergulho foi fundo, mas a sensação de estar de volta à superfície e sentir o sol aquecendo o corpo compensou todo o esforço. Hoje meus pés tocam o chão firme de novo, mas não perdi mais de vista o mar.

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