Nara Dutra Brossi

Nara Dutra, 38 anos, mãe do Bernardo e da Nina. Paciente de câncer de mama metastático, vivendo com mais qualidade de vida do que muita gente saudável.

Nara Dutra Brossi

O ano era 2017, semana do dia das mães, fui fazer uma mamografia, um dos exames pré-operatórios para uma plástica (arrumar o peito após duas amamentações). Na mesma hora a moça do exame me mandou para um ultrassom de mama, no mesmo dia fiz biópsia, no dia seguinte a bomba: câncer de mama. Nessa mesma semana fiz um PET scan, exame que procura no corpo inteiro outro tumor. E aí veio a segunda bomba: metástase no fígado.
Não preciso dizer que meu mundo desmoronou. A única coisa que eu pensava nesse dia era que meus filhos cresceriam sem a mãe. Pensei em tudo que eu tinha que fazer, para deixar a vida organizada para eles e minha família.

Mas nada como um dia após o outro.

Resolvi que se me restassem 1 ou 10 anos, eles seriam os melhores anos com a minha família. Nada de tristeza ou baixo astral. E resolvi encarar o furacão que vinha pela frente.

Sempre tive cabelo comprido, amava ele e mais do que isso, era super apegada à aparência. O maior medo que tive foi de perder o cabelo. Não perdi. Pelo menos não todo. Fiz a quimioterapia com a touca que congela o couro cabeludo. Preservou cerca de 30% dos fios e conseguia disfarçar com grampos, faixas e gorros. Só que tive que ressignificar tudo que importava para mim. Apesar de não ter ficado careca, meu cabelo tinha aparência de morto, fiquei muito inchada por conta de tanto corticóide, meu corpo se transformou, eu era puro cansaço, não reconhecia a imagem que via no espelho e tentava levar a vida como se nada estivesse acontecendo. Continuei minha rotina louca de trabalho e tentava aproveitar ao máximo meus dois filhos. Na época, a Nina estava completando 1 ano e o Bernardo iria completar 3 anos.

E como disse antes, nada como um dia após o outro. Completei as quimioterapias, fui para cirurgia e a partir daí tudo foi melhorando. O cabelo foi crescendo, o corpo desinchando e o cansaço desaparecendo. E eu fui percebendo que talvez não precisasse do meu plano de preparar a vida dos meus filhos para quando não estivesse mais aqui.

Após 6 sessões de quimioterapia (intervalos de 21 dias) entrei em “remissão”. Na verdade, não sei se pode falar em remissão para câncer metastático, mas o que importa é que me sinto como se fosse. Os medicamentos de controle não me causam efeito colateral nenhum, apenas me lembro a cada 21 dias quão abençoada sou por estar com a doença controlada, me sentindo mais saudável do que nunca.

Depois de um ano em controle e fazendo PET a cada 3 meses, apareceu um ponto no esterno. Volta para quimioterapia (dessa vez mais leve) e radioterapia. Achei que a radio iria ser tranqüila, mas, MEU DEUS, foi como se um caminhão tivesse me atropelado. Se eu fiquei cansada com as primeiras quimioterapias, com a rádio não tenho palavras para descrever o cansaço.

Só que dessa vez eu já tinha passado pelos piores medos do ser humano: a finitude! E voltado ainda melhor. Então fui com a tranqüilidade de que tudo passaria novamente, de que seria só mais uma tempestade. E assim como a tempestade veio, ela passou novamente.

Continuo com os medicamentos de controle e fazendo os exames de investigação, mas sempre digo que com tudo isso, hoje minha vida é melhor do que antes, pois tive a oportunidade de repensar tudo que eu estava vivendo. Minhas relações ficaram mais intensas e verdadeiras e meu trabalho tomou um novo propósito. Sorte seria seu eu pudesse ter toda essa gratidão e amor pela vida sem passar por tudo isso, mas não sei se seria possível, então agradeço a tempestade e os desafios que a vida me trás e aproveito a oportunidade de evoluir sempre.

Mas graças a Deus existe um dia após o outro e eu fui criada pra lutar (obrigada mãe, obrigada pai) e hoje, depois de 3 anos do diagnóstico eu tenho certeza de duas coisas:

1) não vai ser easy
2) eu vou ficar bem

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