Terapia Endócrina – Hormonioterapia

Um dos grandes avanços no tratamento oncológico foi a descoberta de que existem vários tipos de câncer de mama, cada um com tratamento distinto. O mais frequente deles é o chamado “Câncer de Mama Receptor Hormonal Positivo”, que chega a constituir cerca de 70% dos casos de câncer de mama.

Terapia Endócrina – Hormonioterapia

Isto porque estes tumores exibem na superfície de suas células uma proteína chamada “Receptor de Estrógeno” e outra chamada de “Receptor de Progesterona”. A presença destas proteínas é detectada por um exame feito pelo patologista nas células tumorais da biópsia ou do tumor extraído na cirurgia.

A presença de receptores hormonais estimula o crescimento dessas células quando elas são expostas ao hormônio feminino (estradiol). É importante, então, bloquear estes receptores, a fim de impedir o crescimento da célula tumoral. Temos três maneiras principais de fazê-lo:

  1. Através de um “modulador seletivo”, uma molécula chamada tamoxifeno (Nolvadex®). O tamoxifeno é uma substância dada por via oral que se liga e bloqueia o receptor hormonal, impedindo assim que ele estimule a célula tumoral. É usado principalmente em mulheres jovens, que ainda não chegaram à menopausa.
  2. Através de um “regulador negativo”, molécula chamada de fulvestranto (Faslodex®), usada por uma injeção intramuscular a cada 4 semanas. O fulvestranto se liga ao receptor hormonal e o destrói, impedindo que ele continue a estimular a célula tumoral. É usado principalmente em mulheres após a menopausa; quando usado em mulheres jovens, estas devem ser induzidas a entrar na menopausa, através de medicação ou da retirada cirúrgica dos ovários.
  3. Através dos “inibidores da aromatase”, substâncias que inibem totalmente a produção do hormônio feminino nas mulheres após a menopausa. Sem a ligação com o hormônio feminino, o receptor hormonal não consegue estimular a célula tumoral a se reproduzir. Há três drogas deste grupo no mercado: o letrozol (Femara®), o anastrozol (Arimidex®) e o exemestano (Aromasin®). Estas três drogas têm ação praticamente idêntica entre elas, e efeitos colaterais também idênticos.

Estas drogas podem ser usadas em diferentes etapas do tratamento. Tanto o tamoxifeno quanto os inibidores de aromatase frequentemente são dados por tempo prolongado (5 a 10 anos) após a cirurgia, com o intuito de evitar uma volta da doença e, assim, aumentar as chances de cura da paciente. Este tratamento dado após a cirurgia, quando a paciente não apresenta metástases, chama-se tratamento “adjuvante”. O fulvestranto não é usado em tratamento adjuvante, somente em doença metastática.

Estas mesmas drogas podem ser usadas novamente para tratar doença que se espalhou pelo corpo (metástases) e frequentemente são capazes de controlar a doença por muitos anos, com um mínimo de efeitos colaterais. A escolha de uma ou outra droga depende da idade da paciente, do tratamento já realizado anteriormente, de outras comorbidades presentes e do resultado desejado.

Algumas vezes, o uso deste tratamento endócrino é feito antes da cirurgia da mama, no sentido de se diminuir uma massa tumoral grande e facilitar a cirurgia. É a chamada hormonioterapia “neoadjuvante”.

Os efeitos colaterais dessas drogas são bastante bem conhecidos, pois elas são usadas na prática médica há muitos anos.

O tamoxifeno pode causar ondas de calor (fogachos), e inclusive parada da menstruação em algumas pacientes. O tamoxifeno aumenta o risco da paciente apresentar fenômenos cardiovasculares : trombose (formação de coágulos nas veias), infarto do miocárdio, embolia de pulmão e acidentes vasculares cerebrais. Entretanto, como geralmente o tamoxifeno é usado em mulheres mais jovens, sem comorbidades, esse risco é extremamente baixo. Entretanto, em mulheres com história de tromboflebite prévia, doença coronariana ou com problemas de coagulação, deve-se considerar o uso de outro tipo de hormonioterapia. O tamoxifeno tem sido associado a um pequeno aumento de risco de desenvolver câncer de endométrio (a parte interna do útero), mas esse risco é extremamente baixo e o diagnóstico normalmente é feito em fases muito precoces, com excelentes chances de cura. O tamoxifeno não deve ser tomado durante a gestação, pois ele facilita o aparecimento de problemas no feto. Várias mulheres queixam-se de disfunção sexual com o uso do tamoxifeno, relatando diminuição da libido, dificuldade em atingir o orgasmo e secura vaginal. Estes efeitos podem ser tratados com medicação adequada. De uma maneira geral, entretanto, o tamoxifeno é bastante bem tolerado pela maioria das mulheres.

O fulvestranto é uma droga muito bem tolerada. Por ser dada por via intramuscular, num volume relativamente grande, pode haver um pouco de dor no local da injeção, mas este efeito é raro. Ele não apresenta os outros efeitos colaterais do tamoxifeno.

Os inibidores da aromatase são drogas bastante bem toleradas. As principais queixas se referem a um aumento dos sintomas de menopausa: aumento da intensidade e frequência dos fogachos, secura vaginal, secura das mucosas, perturbação do sono. Cerca de 10-15% das mulheres têm queixas osteoarticulares, com dores em geral nas pequenas articulações das mãos e dedos, punho e tornozelo, por exemplo.

Um efeito importante em algumas mulheres é a perda de massa óssea com os inibidores da aromatase, levando a um quadro de osteopenia ou osteoporose. Por isso, é importante o acompanhamento do exame de densitometria óssea anual durante o uso de inibidores da aromatase.


Autor:

Dr. Sérgio Simon – CRMSP 19.865
Oncologista do Centro Paulista de Oncologia (Grupo Oncoclínicas) e do Hospital Israelita Albert Einstein

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